E mais de cinco meses passados ele se deparou com aquele conto escrito. Leu, releu e observou alguns erros de pontuação. Decidiu não corrigir naquele momento. Afinal, aqueles erros já haviam permanecido por tanto tempo no texto de forma tal que não eram mais do autor. Eram do texto. Eram o próprio texto. Este agora, que ele escrevia, também iria conter erros, mas o que importava naquele momento era escrever. Depois, se tudo ficasse pronto e de fato as folhas soltas se unissem em forma de livro, ele corrigiria o que fosse necessário. Precisaria de um especialista, certamente. Engraçado foi a forma como ele decidiu recomeçar. Numa tarde, enquanto tinha outra coisa mais importante a escrever. Ele deveria estar escrevendo a sua dissertação de mestrado. Mas sua dissertação estava em crise. Não sabia muito bem o que escrever. Faltavam menos de seis messes e sequer o que fazer ele tinha claro. Dessa vez não tinha como fugir. Deveria enfrentar seus medos e receios e encarar a dificuldade de colocar no papel seus pensamentos soltos. O problema era que sequer seus pensamentos estavam contribuindo. Não eram as palavras que estavam emboladas, eram os pensamentos. Sobre sua vida? No momento estava da seguinte forma: começou e parou de nadar nos últimos três meses; terminou o namoro, que segundo ele havia ajudado a engordar; começava a se dar conta de que namorar não engorda e que solteirisse não emagrece; trabalhava como professor de segunda a sábado e em alguns domingos aplicava provas em um curso a distância; sentia-se como um urso no inverno, não só pelo corpo de urso, mas porque estava tão atarefado de coisas a fazer que evitava eventos sociais. Enfim, agora que continuava aquilo que já havia começado, sentia necessidade de ficar horas escrevendo sobre si, mas sabia que outras coisas necessitavam mais de sua atenção. Sendo assim, ele encerrou naquele dia sua primeira continuação, esperando que a segunda não demorasse mais cinco meses.
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