Hoje, fui preenchido por uma profunda tristeza. Na última segunda feira, dia 26 de abril, eu estava em uma consulta médica na Praça XI e tomei uma condução que seguia para o Leblon. Era por volta das 16h e vi que o céu estava coberto de fumaça e que estas vinham em direção da Central do Brasil. Naquele momento, não passou pela minha cabeça o que poderia estar pegando fogo.
Quando o ônibus passou em frente à Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas, vi que a nuvem preta surgia do camelódromo, mesmo assim não tinha como ter noção do que estaria acontecendo de fato. Ao chegar em casa, ouvi a triste notícia de que o camelódramo da Central do Brasil havia pegado fogo. Mesmo assim ainda não tinha real dimensão do que havia acontecido.
No dia seguinte,como eu teria que ir à Penha, tomei a condução até a Central do Brasil; havia me esquecido da tragédia. Caos total. Tive que dar a volta no quarteirão para chegar até a Rodoviária. Ali comecei a sentir tristeza; a famosa barraca de frutas que ficava de frente para a rodoviária estava na prateleira exibindo melancias negras. Essa é a imagem que guardo deste dia. Muita gente em volta, olhando a tragédia. Como eu estava com muita pressa, ainda não havia sido capaz de sentir realmente o que havia acontecido. Sabe quando a ficha não cai? É isso! Pois bem, acompanhei durante a semana, todas as matérias que mostravam tratores cumprindo seus papéis e devastando o que não havia sido devastado pelo fogo, mas a ficha ainda não havia caído.
Exatamente uma semana depois, salto eu na Central do Brasil, vindo do Catete e rumando para a Penha, espero o 355, mas o caminho dele já não era mais o mesmo. Que droga! Não sabia. Decidi então ir à Rodoviária(da Central). Passo pela internacionalmente conhecida Estação Central do Brasil e...
...nossa! Só de lembrar meu coração palpita e meus olhos enchem de lágrimas. Apesar de tudo, eu não esperava visualizar aquele deserto repleto de dunas de sucata que havia surgido na minha frente. Que vontade de me lançar naquele entulho e tentar reerguer cada um daqueles ferros. Era preciso fazer isso? Senti parte de mim e da minha história sendo sucateada com aqueles destroços. Percebi o que são capazes de fazer comigo, caso eu não corresponda às expectativas da elite. E não fazemos nada, absolutamente, NADA!
As autoridades anunciaram que aquele terreno agora faz parte de um projeto de modernização e ampliação daquela Rodoviária. Mas para atender aos interesses de quem? E a minha cultura? E a minha história? E a minha vida que não sabe existir sem aquele espaço? Sou parte da Central do Brasil e ela é parte de mim. Aquele camelódromo é A CENTRAL DO BRASIL.
Durante toda a minha vida, desde a infância, sempre passei pelo camelódromo da Central do Brasil, pela CENTRAL POPULAR DO BRASIL. Era o único centro (que conhecia...) dominado pela periferia. Pelo menos centro de nome. Ali nós éramos os protagonistas. Vendíamos barato, comprávamos barato. Bebíamos, dançávamos ou simplesmente passávamos por ele. Mas era nosso. Como era útil: Fones de ouvido, pastéis e refrescos, banheiros públicos, barbeiros, o salão da Angolana Vitória onde Priscila havia feito suas tranças, a loteria de esquina onde fiz várias fézinhas na mega-sena, o hotel popular onde tive algumas aventuras sexuais, o videokê que me ouvia nas madrugas em que passei por ali bêbado vindo da Lapa e que me igualava aos demais, os chocolates, os guarda-chuvas... Todos utensílios de extrema necessidade, mesmo que momentânea. Nada disso mais fará parte daquele espaço. E os DVDs e CDs piratas? Que sociabilizavam a cultura musical e ainda trazia novos fenômenos vindos do Norte e Nordeste, misturados com novos talentos da música Gospel. Misturando o nosso povo, a nossa gente, o nosso cheiro, nossos sons.
Tudo isso foi destruído, não pelo incêndio, mas por aqueles que acreditam que ainda vivemos na época da Ditadura Militar e que precisamos de um “Choque de Ordem”. Não precisamos de ninguém para nos dizer o que é bom ou é ruim. Se este incêndio tivesse ocorrido em um Shopping, rapidamente se manifestariam para reestruturá-lo e devolvê-lo à população burguesa, no padrão que dizem ser o certo. Agora, como foi o nosso Xopen, querem fazer dele o que bem entendem. Ditadores! Devolvam o que é nosso! Não precisamos de ninguém pra nos dizer o que é bom pra gente. Nós sabemos do que precisamos. Queremos que as autoridades nos ajudem a reerguer o nosso camelódromo. É isso que é nosso. A nossa história, a nossa cultura, a nossa vida. Se vale pouco pros doutores... Que se fodam! Pra nossa gente, vale o nosso suor!
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