E na noite em que completava vinte e seis anos, havia decidido tentar pela milésima vez colocar em ordem as palavras que lhe viam a mente. Era muito bom com as palavras. Gostava por demais de pronunciá-las, mas tinha certa dificuldade em colocá-las no papel do computador. Decidiu então, por mais esta vez, ajustar margens, fontes e parágrafos para dar mais uma vez asas à sua imaginação. Não sabia se dessa vez sairia da primeira página, mas era uma tentativa. A noite sempre trazia a inspiração e a vontade de escrever. Mas o quê? Sobre quem? E para quem? Sempre vinha em sua cabeça a necessidade de falar sobre sua vida, suas histórias e memórias. Mas, talvez, o para quê não atingisse o seu objetivo principal. Não sabia também se começar um livro narrando as dificuldades e os desejos em concretizar este objeto, passaria aos leitores a credibilidade de que realmente era um verdadeiro escritor. Também não sabia se ele queria ser considerado um escritor. Mas quem vai ler um livro de alguém que não seja um escritor? Queria fazer o livro. Queria vender o livro. Queria sucesso. Talvez seja esse o grande objetivo: Queria Sucesso. Queria popularidade e notoriedade. Mas não por uma coisa qualquer, por mais que já tivesse tentando, muitas vezes, entrar naqueles programas da moda em que a pessoa vive numa casa mostrando para todos o que seria uma “novela da vida real”. Sempre sonhou com esses programas. Sempre quis dar entrevistas. Sempre quis ser alguém na vida. Por mais que já fosse alguém e que soubesse de todo o seu valor, sempre quis ter espaço. Sempre foi espaçoso e talvez por isso todo o seu corpo pesando no momento 130kg em 1,79m. Também sempre escondia o seu peso, não o peso, mas os números. Mentia. Quem queria dizer? Por mais que parecesse que pesava tudo isso. Com certeza o namoro ajudou. Antes do namoro sempre foi gordo. Já era gordo antes mesmo de pensar em namoro. Talvez já fosse gordo antes mesmo de pensar. Seria algo do tipo: Penso, sou gordo, logo existo. O corpo sempre foi um problema. Na adolescência não se achava bonito. E é mentira de quem diz que adolescentes não se acham bonitos, porque muitos meninos e meninas da sua escola se achavam muito bonitos e bonitas. Mas aos poucos começou a se gostar. Na verdade descobriu formas, diferentemente gostosas, de se gostar. Começou a se interessar por pessoas mais velhas. Se não tinha a beleza, ao menos tinha a juventude. Algo precisa ter para se sentir sexualmente superior. O mais interessante é que como sempre travava na primeira página dos seus escritos, e esta por sua vez já estava acabando. Até mesmo as memórias de sua vida começaram a se acabar. Para que mais esta tentativa chegasse ao fim. Não seria hoje o grande dia. Talvez mais um conto. Talvez.